
Conferência do Ministro das Relações Exteriores de Cuba, Felipe Pérez Roque, no Teatro “Teresa Carreño”, República Bolivariana da Venezuela, 11 de Agosto de 2005, “Ano da Alternativa Bolivariana para as Américas”.
(Versões Estenográficas do Conselho de Estado)
Companheiros que presidem o debate;
Delegadas e delegados ao Festival;
Companheiros e companheiros;
Jovens venezuelanos, anfitriões desta festa maravilhosa;
Compatriotas cubanos, que representam dignamente à juventude do nosso país no Festival (Aplausos):
Com um são e profundo sentimento de inveja por ser apenas convidados e não poder ser já delegados, seguimos com muita atenção em Cuba e noutros países, o desenvolvimento deste evento, que fortalece a tradição da celebração dos festivais mundiais, onde os estudantes de todo o mundo, a juventude progressista, revolucionária, debate sobre os problemas do mundo, sobre os caminhos para a sua solução.
De modo especial, sentimos particular orgulho de poder participar deste Festival na terra de libertadores, na terra de Bolívar, na terra do Comandante Hugo Chávez (aplausos e exclamações de: “Viva Chávez!”), na terra a cujo povo a América Latina deve a sua independência do colonialismo; o povo que atravessou os Andes, que lutou ao longo e amplo da imensa geografia da nossa América para parir um grupo de repúblicas independentes, mas ainda não unidas como uma só nação, como era o sonho do Libertador e de José Martí.
O tema ao qual fomos convidados intitula-se “América Latina abre o debate, a estratégia da luta antiimperialista”. Sobre esse tema queremos oferecer-lhes alguns pontos de vista, uma aproximação ao debate, uma provocação aos participantes, jovens na sua maioria, que nos acompanham na tarde de hoje.
Há oito idéias chaves que queremos apontar:
Primeira.- Como falou o companheiro Fidel há alguns dias à delegação cubana que se preparava para participar do Festival, acreditamos que a América Latina é hoje o cenário decisivo para o enfrentamento ao imperialismo a nível mundial (Aplausos).
Isso não foi assim noutro momento; pois hoje, apesar de que as forças revolucionárias, progressistas e democráticas enfrentam o imperialismo em todo o mundo, na América Latina, o momento histórico e o conjunto dum grupo de peculiaridades fazem que hoje o que está acontecendo na América Latina tenha uma repercussão decisiva na luta contra o imperialismo a nível mundial. Portanto, este debate, ao qual fomos convidados, está no centro e no futuro não só da América Latina mas também do mundo.
Quero fazer um primeiro esclarecimento: Acreditamos que a luta contra o imperialismo não é a luta contra o povo dos Estados Unidos (Aplausos), vítima também das políticas imperiais e aliado potencial da luta a nível mundial contra o imperialismo.
No público presente devem encontrar-se jovens norte-americanos representantes do melhor da juventude desse país (Aplausos) e em nenhum caso devem sentir que as nossas palavras, necessariamente fortes e claras, vão dirigidas a culpar ou responsabilizar o povo dos Estados Unidos.
Lembremos que o povo dos Estados Unidos, ou 80% desse povo, apoiou o retorno do menino Elián González a Cuba; sem esse apoio não teria sido possível esse regresso, junto a sua família e seu pai, Juan Miguel González, que se encontra aqui entre nós, como convidado (Aplausos).
Particularmente, lembramos que mais de 90% da população afro-norte-americana apoiou a luta do nosso povo, e de todas as pessoas honestas e decentes do mundo, pelo regresso do menino Elián González a Cuba.
O povo norte-americano, apesar da campanha de tergiversação, das mentiras apresentadas no processo contra os nossos Cinco heróis, lutadores antiterroristas, qualquer norte-americano honesto que conheceu da infame prisão a que foram submetidos até hoje, junta-se à luta pelo regresso desses Cinco jovens. Hoje é um momento para agradecer, não só a todos os presentes, mas também de maneira particular, ao povo e à juventude norte-americana.
Por tal motivo, acreditamos que a luta contra o imperialismo é a luta contra o governo imperial dos Estados Unidos e contra seus aliados a nível mundial, porque o governo norte-americano é o líder das forças reacionárias presentes nos nossos países, núcleos reacionários, oligárquicos, aliados menores do imperialismo que necessitam de seu poderio militar e de sua agressividade para manter seus privilégios, e é também o líder dos setores que a nível mundial se beneficiam da atual ordem de exclusão, de exploração e de opressão imposta aos nossos povos. Essa é nossa primeira consideração.
Do nosso ponto de vista, o cenário chave da luta contra o imperialismo é a América Latina. O festival tem lugar no centro desta batalha e cremos que a mesma não é contra o povo dos Estados Unidos, senão contra o governo reacionário que tentou impor uma ditadura fascista a nível mundial, desatando guerras, mentindo, escamoteando a verdade e utilizando seu imenso poderio para impor ao resto dos povos seus interesses, uma verdadeira ditadura.
Segunda.- Acreditamos que não podemos pecar de ingenuidade e crer que a luta antiimperialista na América Latina é fácil ou tarefa de poucos esforços. Devemos reconhecer, particularmente os jovens, que terão mais anos e, portanto mais responsabilidades nessa luta, que durante mais dum século o imperialismo norte-americano conseguiu construir nesta região, e sobretudo depois da desaparição da União Soviética, depois da desaparição do campo socialista, depois da enorme onda reacionária contra as idéias progressistas e da esquerda, ao longo de mais dum século conseguiu construir um sistema de dominação sobre a América Latina; a luta antiimperialista nesta região visa derrubar um sistema de dominação que já está implementado, que não luta por estabelecer-se, mas que já está estabelecido.
Qual a situação herdada pelos jovens aqui presentes hoje e de milhões como vocês na nossa região?
Primeiramente, o imperialismo conseguiu impor como um dogma nesta região um sistema político, que na Venezuela foi o Pacto de Ponto Fixo; um sistema político que exclui, desenhado para a alternância inofensiva de diferentes grupos de uma mesma oligarquia local; um sistema político corrupto e corruptor, baseado no dinheiro, na mentira, na compra de votos, na utilização do dinheiro para decidir o resultado, com elevados níveis de não registro eleitoral.
Milhões de norte-americanos não estão registrados, não são eleitores legais. Na Venezuela, antes do referendo foram cinco milhões os que receberam a cédula eleitoral, na Bolívia, metade da população com direito ao voto não está registrada, não tem cédula e em lugares onde deveriam votar 7 milhões, apenas votam 2 milhões, onde deveriam votar 15, apenas votam 4 milhões.
Um sistema onde não existem reuniões para prestar conta aos eleitores; um sistema político que não obedece às necessidades da maioria, às necessidades do povo, que não é baseado no princípio de que não pode haver democracia sem justiça social e onde não há igualdade de oportunidades, que não é justiça nem igualdade, embora esteja refletido no papel, na Constituição e nas leis, se na realidade não se tem acesso a esses direitos, começando pela educação; um sistema político que não tem em conta 50 milhões de latino-americanos que são analfabetos e centenas de milhões que são analfabetos funcionais.
Portanto, como parte do esquema de dominação, o imperialismo estabeleceu um sistema político útil a sua dominação, porque divide as sociedades e impede aos povos fazer a sua vontade.
Com certeza, em meio e apesar desse sistema, na Venezuela triunfaram as forças populares, lideradas pelo carisma e a capacidade de líder de povos do presidente Hugo Chávez (Aplausos); mas não devemos aceitar o dogma do sistema político imposto, sistema político de lentejoulas, de aparências, mas cujo conteúdo profundamente classista e que exclui está desenhado para favorecer o acesso a uma minoria privilegiada, dependente e defensora dos interesses dos Estados Unidos.
Segundo fator desse sistema de dominação: O imperialismo conseguiu implementar um grupo de instituições e instrumentos legais que facilitam seu controle e a exclusão daqueles que não cumprirem as regras do jogo. A Organização de Estados Americanos, a Carta Democrática Interamericana, a Área de Livre Comércio para as Américas, os processos onde o governo dos Estados Unidos certifica “a boa conduta” dos governos da América Latina impedindo-lhes o acesso a financiamentos ou ajudas para puní-los, a chamada cooperação na luta contra o terrorismo e o narcotráfico, são instrumentos que permitem o domínio e a imposição dos interesses norte-americanos. Não devemos subestimar a capacidade do imperialismo na região para enfrentar-se a nossa luta.
Terceiro fator desse sistema de dominação: elevados níveis de dependência econômica da América Latina com os Estados Unidos.
Na América Latina, 56% dos investimentos são norte-americanos, 43% do que a América Latina compra no exterior é dos Estados Unidos, 55% do que a América Latina exporta é para os Estados Unidos; portanto, existem níveis de dependência econômica, ferramentas para negar-lhe a um país o acesso ao mercado, a concessão dum crédito, a execução dum investimento, que exercem pressão aos governos que de deixam pressionar.
Claro, aí temos à Revolução Cubana que tem sido punida por não se render, que tem resistido 45 anos e que continua firme sem aceitar as pressões (Aplausos e exclamações de: “Viva Cuba Livre!”). Isso levou nosso povoa resistir o bloqueio, as agressões, os ataques terroristas, mais de 600 planos para assassinar Fidel, as campanhas da mídia pagas pelo império.
A Revolução Bolivariana resiste e derrota o império e não se rende ante as pressões; mas outros não têm podido, claudicaram e não têm podido resistir a pressão do império, suas medidas econômicas, devido aos níveis de dependência.
Em quarto lugar – tenho assinalado três fatores desse esquema de dominação ianque sobre a região - : o sistema político estabelecido em nossos países, que nos divide e impede que lutemos unidos pelas prioridades nacionais.
Já falei nas ferramentas do sistema interamericano: a OEA, a ALCA, a Carta Democrática Interamericana.
Terceiro, fiz referências à elevada dependência econômica, e o quarto fator que identifica esse sistema de dominação hegemônico do imperialismo na América Latina é que os Estados Unidos conseguiram com sucesso sabotar e impedir ao longo de mais de cem anos uma verdadeira construção da unidade latino-americana e caribenha.
Enquanto na Europa a União Européia avançou, enquanto na África a União Africana avançou, enquanto no sudeste asiático a organização dos países do sudeste da Ásia avançou, na América Latina a verdadeira integração latino-americana não tem podido avançar, porque os Estados Unidos têm feito o possível para estimular guerras entre países, conflitos fronteiriços, divisões, fazer gorar essas tentativas; e os latino-americanos e caribenhos que somos 33 países membros das Nações Unidas, com 550 milhões de habitantes e 2 milhões de milhões do Produto Interno Bruto, ainda andamos desunidos, só começam a dar-se passos iniciais e às vezes esses passos tem-se dado sobre idéias erradas de que o livre comércio é integração.
A integração há que proclamá-la sob os princípios da Alternativa Bolivariana das Américas e defendê-la com palavras e fatos como a tem estado defendendo o presidente Hugo Chávez (Aplausos).
Estes quatro fatores identificam que já o imperialismo tem na América Latina um esquema de dominação consolidado; mas, então, o que há que fazer, chorar? Não, lutar (Aplausos). Não deve existir espaço para o desânimo, não deve existir espaço para o desânimo!, porque – e esta é a terceira idéia que quero lhes transmitir – pensamos que também há oportunidades e fatores positivos. Vou numerá-los.
Primeiro: existe uma tradição revolucionária, libertadora, um pensamento antiimperialista, uma prédica dos fundadores da nossa independência para a integração, um pensamento social avançado na América Latina, dos mais ricos no universo, existe uma tradição, o pensamento de Bolívar, de José Martí, o pensamento do Che Guevara (Aplausos), a prática dos movimentos progressistas, da esquerda. Existe uma tradição, temos fontes das quais beber, raízes sobre as quais erguermos.
Não somos os povos da América Latina povos sem história, povos sem heróis, povos sem glórias nas quais nos afirmamos para ganhar as próprias glórias. Somos uma geração de latino-americanos e caribenhos que viemos de uma tradição gloriosa, que se reencarna, se reatualiza e se torna novo estímulo para as lutas atuais.
Esse é um primeiro fator: Não somos povos condenados a não cumprirmos o sonho histórico e a meta dos fundadores.
Segundo: Temos ao nosso favor que a América Latina está enfrentando a pior crise econômica e social da sua história e essa crise estimula o espírito de rebeldia dos povos, contribui para criar consciências, contribui para fazer mais forte e ativa a mobilização popular, e portanto a crise, que é terrível, e que a sofrem milhões de latino-americanos, contudo, ao mesmo tempo estimula a rebeldia, o espírito de mobilização; anima às massas populares a saírem as ruas para defender seus direitos, para defender que outro mundo melhor é possível, e isso constitui uma oportunidade para a luta antiimperialista na América Latina.
Qual a situação da América Latina? Sei que esta reunião e este Festival não são para descrever a situação, senão para discutir como transformá-la, como mudá-la, como derrubar a adversidade, como derrubar a apatia, como mobilizar, como acreditar em que sim podemos, em que sim podemos conquistar um mundo melhor para os nossos filhos. Mas temos que determos brevemente na realidade para apontar que na América latina a pobreza não diminui, mas sim cresce, metade da população latino-americana – 224 milhões, segundo a Cepal – vive na extrema pobreza; 96 milhões de latino-americanos vivem na indigência e todas estas cifras vocês sabem que são conservadoras, a realidade sempre é muito mais grave do que as estatísticas.
Metade da população latino-americana vive trabalhando em empregos informais sem sindicatos, sem proteção social, sem segurança social, sem nenhum tipo de garantia trabalhista. Na América Latina, em cada 10 novos empregos, sete são no setor informal da economia. Isto é, mais exploração do que no setor formal, 80 milhões não têm serviço de água potável; 127 milhões vivem em condições de insalubridade.
É essa a realidade da América Latina; é a região mais desigual do mundo, onde 10% dos mais ricos recebem 40% das receitas totais. A situação é pior que quando o Che Guevara morreu comandando aquele grupo de homens dispostos a transformar essa realidade. Hoje é pior no sentido das condições de vida, da exclusão, da pobreza; contudo, é melhor no ânimo e compromisso das novas gerações de latino-americanos de não deixarem cair aquela bandeira, de continuar lutando para transformar essa realidade, e para isso contribui este Festival que vocês organizam com maturidade, seriedade e entrega.
A dívida externa é hoje uma das principais ferramentas do poder imperial sobre a América Latina. Nestes dias comemora-se o 20º aniversário de Fidel liderar a batalha contra a dívida externa.
Por estes dias do ano de 1985, quando se realizava o Festival Mundial da Juventude em Moscou, em uma União Soviética que não parecia que algum dia ia sumir, naquele mundo bipolar que, realmente, tinha problemas, dificuldades; mas pior è o mundo de hoje, um mundo unipolar, onde surgiu uma única superpotência com todo seu poderio militar, tecnológico, econômico, midiático, naqueles dias precisos do Festival, em Havana efetuavam-se reuniões diárias onde Fidel, com uma prédica constante, apelava ao reconhecimento de que aquela dívida era impagável para os povos da América Latina.
O que aconteceu nestes 20 anos? Em agosto de 1985, quando Fidel falava em Havana sobre a dívida externa como mecanismo de expoliação, a dívida dos 33 países da América Latina e do Caribe era de US$ 300 bilhões, atualmente é de US$ 780 bilhões, mais do duplo do que naquela altura, e nestes anos foi pago seis vezes o que se devia naquele momento: 1,8 trilhão, aproximadamente 2 trilhões dólares foram pagos. Como é possível que você pague seis vezes o que devia e após 20 anos deva o duplo do que devia no começo? Por causa desse mecanismo informal.
Por que há tanta pobreza na América Latina? Por que não há escolas? Por que não há água potável? Por que não há vivendas? Por que não há empregos dignos? Por que não há direito à alimentação? Por que não há assistência médica de graça e universal? Por que não há uma vida decorosa para a maioria da população latino-americana? (Aplausos).
Na América Latina morrem aproximadamente 40 crianças menores de cinco anos em cada mil nascidos vivos. Que vergonha! E tudo isso tem também um subregistro dos que morrem e não se conhecem seus nomes. Há mais de 50 milhões de analfabetos, já falamos nisso. Essa é a crise, e a crise hoje provoca maior mobilização popular, maior resistência social, maior organização, mais luta, e, portanto, vira estímulo para a luta contra o imperialismo e sua dominação na região.
Esse é um segundo fator. O primeiro – disse – nossa tradição histórica, nosso pensamento revolucionário, antiimperialista; segundo, a atual situação.
Terceira oportunidade e aspecto positivo: a crise de credibilidade do neoliberalismo. Nem os defensores acérrimos defendem o neoliberalismo na América Latina; aqueles que diziam que o Estado era um obstáculo, que era necessário privatizar até os parques, os cemitérios; aqueles que privatizaram e venderam as empresas públicas, resultado do esforço e do sacrifício de gerações, patrimônio do povo, e muitas vezes as venderam através de operações fraudulentas, cobrando somas escandalosas; nem sequer os que defenderam a idéia de que o Estado não devia encarregar-se nem da educação nem da saúde, nem da igualdade, que apenas devia imperar as leis selvagens do mercado, esses agora ficam calados, ocultam-se, não têm o valor de defender suas idéias em público.
O neoliberalismo entrou em crise quanto ao debate teórico, na prática dos povos; os neoliberais têm que prometer que não vão ser neoliberais, ainda que depois sejam quando chegarem ao governo, para tirar-lhes a verdade às massas.
Foi ultrapassado o momento inicial de lógico estupor, o desconcerto sobre os povos da América Latina, sobre as forças da esquerda depois do colapso da União Soviética, depois da desaparição do campo socialista, quando foi proclamado pelos porta-vozes imperiais que tinha chegado o final da história, que o socialismo estava morto, que o que durava era só isso, 70 anos, e que não tinha sentido nem sequer debater sobre o tema; quando foi proclamado que era o capitalismo, o imperialismo, o neoliberalismo o fim da história.
Já passaram esses momentos, decorreram 14 anos desde que o imperialismo proclamou sua vitória e os povos estamos novamente lutando com maior otimismo e esperanças para conseguir a vitória. A Revolução cubana continua aí, proclamando-se socialista, sem renunciar a seus princípios (Aplausos).
Hoje estão presentes aqui jovens procedentes da China, do Vietnã, de Laos, da Coréia, em cujos países também se constrói, com suas características, o socialismo, e é defendido como bandeira.
Hoje o presidente Chávez faz um apelo para discutirmos, construirmos e defendermos o socialismo do século 21. As bandeiras erguem-se mais uma vez (Aplausos).
Poderíamos repetir àqueles enterradores do socialismo que proclamaram sua vitória quando com muita dor vimos a desintegração da União Soviética, quando vimos aqueles acontecimentos trágicos que tiveram lugar, a aqueles que proclamaram a vitória, que nos condenaram a morte e que disseram que só restavam alguns dias, poderíamos repetir-lhe agora que “os mortos que vos matastes gozam de boa saúde”, e estamos aqui defendendo nossas idéias e defendendo o socialismo como única opção (Aplausos).
Portanto, há uma crise profunda de credibilidade no neoliberalismo que se torna oportunidade para nossa luta.
Já falei em três coisas positivas: a tradição histórica do nosso pensamento, a crise profunda que existe na América Latina, a crise do neoliberalismo como doutrina.
Em quarto lugar, acho que é uma oportunidade e um elemento positivo, a vitoriosa resistência da Revolução cubana; a consolidação vitoriosa da Revolução Bolivariana e da sua profundeza (Aplausos); o surgimento das forças populares e de partidos da esquerda com opções de triunfo em vários países da América Latina; a capacidade de mobilização dos povos da América Latina que têm derrubado governos corruptos, neoliberais e traidores na nossa região.
Um quinto elemento positivo é o tradicional sentido de independência dos países caribenhos, 14 dos quais fazem parte da Comunidade do Caribe, Caricom, alguns de cujos delegados estão presentes entre nós, países pequenos com grande sentido da dignidade nacional, grande sentido de independência, que jamais se prestaram para atacar a Venezuela Bolivariana ou a Cuba socialista, constituindo um obstáculo perante as tentativas imperiais, inclusive na OEA. Esse sentimento de independência dos países caribenhos, junto ao surgimento de uma nova correlação de forças na América Latina, com o triunfo dos governos progressistas e da esquerda em vários países tem mudado a correlação de forças na região com exemplos recentes, como o fato de que os Estados Unidos não tenham conseguido imporem seus interesses, inclusive em Foros que domina tanto quanto a OEA, onde não pôde impor uma condenação a Cuba no ano passado,e onde este ano não pôde impor suas manobras contra a Revolução Bolivariana.
A correlação de forças mudou, os antigos aliados neoliberais do imperialismo atuam livremente, surgem forças novas, novos líderes. Tudo isso no meio de uma onda de mobilização popular e de resistência ante os efeitos da crise e do fortalecimento do neoliberalismo na região.
Estes são os cinco aspectos que consideramos positivos, que enfrentam os elementos negativos que anteriormente fiz referências e que do nosso ponto de vista constituem a base da luta antiimperialista.
Portanto, é viável a luta? Pode-se derrubar o imperialismo a nível mundial? Sim, se for derrubado na nossa região. Por acaso é isso possível? Com certeza. É fácil? Não, não é fácil, mas sim possível (exclamações de: Sim, é possível!) Sim, é possível, Sim, é possível! (Aplausos e exclamações de: Sim, é possível!)
Sim é possível, é possível se tentarmos todos juntos, se juntos lutamos com honestidade e desinteresse por esses objetivos que ultrapassam qualquer outro que a nossa geração se tenha proposto.
Quarta idéia chave. A luta contra o imperialismo é especialmente decisiva no terreno das idéias. A mobilização popular, o ativismo político deve-se sustentar na batalha e no triunfo das idéias, isso significa não a repetição dum lema vazio, senão a análise para conseguir a verdade e contribuir para sua difusão.
Do nosso ponto de vista, quais o grupo de elementos para integrar um programa de luta contra o imperialismo? Vou numerar alguns.
Primeiro, consideramos que no debate das idéias há que questionar o capitalismo como sistema e o culto ao individualismo, o consumismo e egoísmo como estímulos para os humanos. Não se pode tentar derrubar o imperialismo aceitando o capitalismo como sistema (Aplausos).
Devemos reivindicar o socialismo como sistema, adaptado, com certeza, às çondições
e características de cada país, sem cópia, sem repetição, com criação, devido às condições diversas de cada país.
Devemos reivindicar os princípios de solidariedade, de cooperação, como expressão dum novo tipo de relação entre e dentro das nações; a idéia de que o homem só pode se movimentar pelos sentimentos de egoísmo, pelos sentimentos de consumo, esbarra com nossa visão de que o homem só pode se mexer por sentimentos de altruísmo.
Não foi por dinheiro que 350 mil combatentes voluntários cubanos foram à África para derrubar o apartheid, foram acreditando nas idéias (Aplausos).
Há exemplos que demonstram que o caminho a seguir é a solidariedade e a cooperação.
Centenas de milhares de latino-americanos e caribenhos que recuperarão a visão nos próximos 12 meses através da Missão Milagro, demonstram as potencialidades da integração (Aplausos), sob os princípios da ALBA; da integração solidária, sob os princípios da Alternativa Bolivariana para as Américas, sob esses princípios proclamados pelo presidente Chávez. É esse o caminho, o caminho da cooperação.
Nosso país tem dado provas modestas também, e talvez não seja bom falar desse exemplo, mas é tão puro que não deveria deixar de se mencionar. Em Cuba tem-se formado durante mais de quatro décadas 43 mil jovens de 120 países e atualmente estudam como bolsistas no nosso país, aproximadamente, 17 mil jovens de mais de 100 países (Aplausos).
O país agredido, bloqueado, fustigado tem dezenas de milhares de seus filhos trabalhando noutras terras, e o império, que pode lançar um ataque nuclear, não pode enviar 20 mil médicos para salvar vidas noutras terras (Aplausos). São outros princípios que deveriam mobilizar os homens (Exclamações e lemas).
Portanto, qual o motivo da nossa luta? Primeiro, devemos questionar o capitalismo como sistema; devemos questionar a idéia de que o que é o egoísmo, o estímulo, no debate das idéias. Não podemos enfrentar e derrubar o imperialismo acreditando que o capitalismo é o sistema.
Temos que compreender que a construção do socialismo é um processo histórico, que não é questão dum dia para outro; que não é um dogma, mas que sim é a meta (Aplausos).
Segundo – é nossa opinião respeitosa, é mesmo nossa opinião que vou dizer agora, logicamente, de pontos de vista diferentes e aberta ao debate – pensamos que há que questionar a democracia e o pluripartidarismo como modelo dogmático, como único modelo de democracia existente.
Pensamos que há que proclamar claramente:
- Que não pode existir democracia sem justiça social
- Que não há liberdade possível senão sobre a base do desfrute da educação e da cultura.
- Que um analfabeto não é realmente livre.
- Que não há desfrute real dos direitos humanos senão há igualdade e equidade.
- Que os pobres e ricos não terão jamais igual direito na vida real ainda que estejam proclamados...
Bom, também está conosco o vice-presidente da República Bolivariana da Venezuela (Aplausos e exclamações), José Vicente Rangel, jovem combatente pela justiça e contra o imperialismo por várias décadas.
José Vicente, temos a honra de recebê-lo em qualidade de mestre, mas também de companheiro de trincheira, e expressamos nosso orgulho de compartilhar nestes dias com o presidente Chávez e com você (Exclamações).
Acho que para os homens e mulheres da tua geração, o Festival é um prêmio, e um tributo para aqueles que tombaram sem ver esse dia, para os que lutaram com vocês e não puderam ver esta hora (Aplausos).
Dizia que no combate das idéias, a luta contra o imperialismo deve-se proclamar com valor e os pobres e ricos não terão jamais os mesmos direitos na realidade, ainda que estejam proclamados e reconhecidos no papel. Não pode haver democracia senão há justiça social. Não pode haver liberdade senão baseada no desfrute da cultura e da educação. Nos Estados Unidos custa ser eleito senador, são necessários pelo menos US$ 8 milhões.
Por acaso um pobre desempregado sem casa, um desses 40 milhões de norte-americanos que não têm acesso à saúde pode ser senador? Segundo a Constituição e as leis, pode sim; segundo o papel, pode sim; mas segundo a vida com certeza não pode não.
Pode um pobre analfabeto da América Latina tornar-se deputado num parlamento da América Latinas? Não pode não.
Somente com o triunfo de uma Revolução, apenas com o triunfo dum processo popular que ponha fim aos excluídos de sempre no controle dos destinos de seu país, como aconteceu aqui na Venezuela Bolivariana (Aplausos).
Os pobres têm agora na Venezuela opções reais; mas, poderiam ter essas opções na democracia do Pacto de Ponto Fixo? Poderiam não.
Poderiam ter essas opções nas sociedades onde metade não aparece registrada para votar e da metade registrada apenas participa 20% da população?
Não poderiam, porque para isso é necessário muito dinheiro, maquinarias, privilégios que não estão ao alcance das maiorias pobres (Exclamações).
Terceiro, cremos que há que reivindicar o direito dos povos a sua livre determinação, há que defender o direito de cada povo a determinar seu sistema político, suas instituições e suas leis.
Devemos proclamar a idéia de que não exista um modelo único, um dogma, e que cada povo deve ter o direito que lhe consagra o Direito Internacional e a Carta das Nações Unidas a exercer sua livre determinação.
Ninguém pode vir do exterior para certificar no meu país, para proclamar o que é potestade exclusiva dos filhos do meu país. Esse é o princípio que nós sempre temos defendido em Cuba (Aplausos), e não temos quebrado nossa bandeira, não temos aceitado as pressões e temos enfrentado as campanhas de mentiras e não temos entrado no jogo de, para sermos politicamente corretos, fazer mudanças que nos façam adaptarmos às regras do jogo que o império quer proclamar.
Defendemos nosso direito bem como reconhecemos o dos outros e não dizemos que o nosso modelo é a receita. Esse é nosso modelo, fruto dum verdadeiro processo histórico, democrático, que tem custado a vida dos melhores filhos do nosso povo, e è ele que nos tem permitido enfrentar a agressão feroz do império. Nosso modelo não o exportamos, mas reclamamos e reivindicamos o direito de cada povo a construir seu próprio sistema.
Quarto.- Temos que resgatar as bandeiras da democracia e os direitos humanos. O imperialismo apropriou-se deles de maneira hipócrita, tornando-as armas contra os povos, utilizando seu domínio midiático, sua capacidade de pressionar os países.
Devemos dizer com clareza: o imperialismo é a maior força antidemocrática e violadora dos direitos humanos no mundo. (Aplausos e exclamações).
Devemos lembrar que o imperialismo viola suas próprias regras que impõe aos outros quando conveniente.
Lembremos que organizou um golpe de estado contra o presidente Salvador Allende que tinha sido eleito segundo as regras do sistema.
Lembremos que não invocou a Carta Democrática Interamericana no momento do golpe de estado contra a Revolução Bolivariana; fizeram silêncio, ocultaram-se para ver se podiam triunfar e reafirmar-se, e foram vencidos pela mobilização do povo bolivariano (Aplausos).
Não devemos cair na ingenuidade de aceitar ao imperialismo suas regras, porque ele as viola, e por isso apoiou, organizou, financiou e armou as ditaduras militares na América Latina que desapareceram e assassinaram centenas de milhares de latino-americanos.
O imperialismo não erra nunca em identificar seu inimigo para atacá-lo, e nós também não devemos errar nisso, como dizia o Che Guevara não se pode dar nem uma mínima chance. Por tal motivo, reivindicar o direito à livre determinação dos povos constitui hoje elemento essencial da batalha contra o imperialismo na América Latina no terreno das idéias.
Quinto.- temos que enfrentar o neoliberalismo e o unipolarismo; temos que defender uma nova ordem econômica e política internacional (Aplausos); temos que defender a democracia não só dentro dos países mas também nas relações entre os países. Temos que defender a democratização das relações internacionais.
Atualmente vivemos a tentativa de impor uma ditadura a nível planetário que ameaça de agredir 60 ou mais países, chamados “escuros cantos do mundo” pelo presidente George W. Bush.
A atual ordem mundial impede o direito ao desenvolvimento a mais de 130 países, independentemente do que esses países façam para se desenvolverem.
Um sistema econômico baseado na expoliação dos nossos países, baseado num comércio onde cada vez compramos mais caro o que temos que comprar e vendemos mais barato o que temos que vender, um sistema de comércio internacional injusto, onde os nossos países não têm acesso aos mercados, nem às tecnologias, não têm acesso aos fluxos financeiros, onde as instituições internacionais funcionam para imporem regras aos pobres, regras que não são impostas aos países ricos e desenvolvidos. Nesse sistema os nossos países não podem ser desenvolvidos. Temos que defender a necessidade de democratizar as relações internacionais. Temos que reivindicar uma verdadeira integração latino-americana e caribenha, alternativa ao modelo de subordinação estabelecido pelos Estados Unidos.
Temos que reconhecer a necessidade – como proclamou o presidente Chávez – agora ou nunca, de construir uma verdadeira união latino-americana e caribenha, algumas de cujas instituições começam a nascer com sucesso, como a Alternativa Bolivariana para as Américas, a Petroamérica, Petroandina, Petrocaribe, resultado de uma futura integração verdadeiramente latino-americana e caribenha.
Agora, a quinta idéia. No plano da luta política e da mobilização popular, cremos que a primeira prioridade da luta antiimperialista da América Latina é defender a Revolução Bolivariana (Aplausos), que é hoje patrimônio estratégico de todos aqueles que na América Latina lutam contra o imperialismo e a favor dum mundo melhor na região.
O derrubamento da Revolução Bolivariana significaria cem anos de retrocesso nas nossas lutas, a região da América Latina e o Caribe arderia se o império invadir a Venezuela bolivariana ; mas o império acumula forças, organiza planos e ambiciona a idéia de derrubar à Revolução Bolivariana.
Esta Revolução é na atualidade um terreno onde temos triunfado e ponte para continuar a luta na América Latina. Sua defesa é hoje prioridade principal para todas as forças democráticas, revolucionárias, progressistas, da esquerda, antiimperialista, da América Latina e do mundo (Aplausos).
Dizemos isto para agradecer profundamente e reconhecer o valor da solidariedade internacional, porque durante décadas a Revolução Cubana e sobretudo nos últimos 15 anos não só alimentou-se da fé e da paixão de seus filhos, mas também da solidariedade dos povos e das forças progressistas do mundo.
Agradecemos a solidariedade que temos recebido em nossa luta; mas não temos dúvidas de que neste momento – e nós continuaremos resistindo até acabar com o bloqueio e a subversão contra Cuba – o Festival será cenário para fazer o mais fervente apelo para dobrar os esforços solidários com a Revolução Bolivariana, o povo nobre e generoso da Venezuela, com o presidente Hugo Chávez, com o governo bolivariano que ele lidera e com a obra transformadora e criativa que eles têm feito nascer nesta terra (Aplausos). É esta a prioridade principal.
Em segundo lugar, identificamos como outra prioridade impulsionar a Alternativa Bolivariana para as Américas e derrubar, finalmente, a ALCA e todas as outras fórmulas que de alguma maneira são a ALCA encoberta, fabricada como um quebra-cabeças: os tratados de livre comércio entreguista que os Estados Unidos têm imposto a outros países, permitindo-lhe construir uma rede que de alguma maneira substitua a ALCA e que não têm podido impor.
Devemos opor-nos aos mecanismos de dominação imperial na região, é esta uma terceira prioridade; temos que destruir a OEA. Por que devemos aceitar que a OEA seja o Foro de integração da América Latina e o Caribe? (Aplausos).
Temos que fundar uma organização latino-americana e caribenha de Estados; nessa organização Cuba sim poderia entrar, uma organização independente, não manipulada pelos Estrados Unidos, (Aplausos e exclamações) , ainda que é verdade que a OEA de hoje é também território de enfrentamentos e espaço de luta – como já disse – não é a OEA que com docilidade aceitou afastar Cuba no início dos anos 60, esta é uma OEA onde no outro dia o governo dos Estados Unidos não pôde impor seus desígnios tenebrosos contra a Revolução Bolivariana e seus mecanismos de seguimento. Mas de todo jeito essa não era a organização que Bolívar queria criar no Congresso Anfictiônico, esse não era o sonho de Bolívar e de Martí, essa é a América de Monroe, não a de Bolívar e Martí, e a OEA não pode ser jamais o Foro que os latino-americanos e caribenhos aceitem como mecanismo de integração e discussão dos seus problemas.
Devemos nos opor à Carta Democrática Interamericana, instrumento de intervenção que não foi, contudo, invocada quando o golpe de estado contra a Revolução Bolivariana.
A quarta prioridade é opormos às bases militares norte-americanas na América Latina e no Caribe (Aplausos), temos que denunciar e enfrentar os planos agressivos do império.
Contra quem vão dirigidos os planos militares dos Estados Unidos na atualidade na região? Contra quem vão dirigidos os soldados norte-americanos? Contra quem são elaborados esses planos? Quem é o inimigo? Quem vai agredir desde a América Latina os Estados Unidos? Contra quem se preparam os soldados e para o que se criam novas bases? São planos dirigidos contra a Revolução Bolivariana, contra Cuba, contra todo o país que tente desafiar o poder do império e afetar seus interesses, essa é a verdade que está aqui, no fundo desta discussão.
Em quinto lugar, temos que reclamar a abolição da dívida externa que já pagamos seis vezes nos últimos 20 anos. Devemos exigir nosso direito a receber condições favoráveis de financiamento.
De onde pode sair o dinheiro para os nossos países? Todos os anos são investidos um milhão de milhões em despesas militares, 500 mil desses milhões é gasto apenas pelos Estados Unidos; um milhão em publicidade comercial; 300 bilhões para subsidiar as produções agrícolas dos países ricos, cobram-nos US$ 100 bilhões anuais em tarifas para permitir que os produtos entrem a seus mercados. Ai está o dinheiro, que foge por causa do sistema financeiro internacional em crise que tornou a economia e as finanças internacionais num cassino. Que os países desenvolvidos cumpram seus compromissos, que já eram muito baixos e modestos com a ajuda oficial ao desenvolvimento. Há dinheiro, mas é o rico que têm, o esbanjam em excesso, enquanto um milhão de pessoas no mundo são analfabetas, 900 milhões são famintos e 2 mil milhões não conhecem ainda a eletricidade.
Há dinheiro, mas o que não há é decisão política para permitir aos nossos pobres o acesso a uma vida digna e decorosa.
Temos que reivindicar a soberania dos nossos povos em relação aos recursos naturais; temos que defender nosso direito pelo uso sustentável desses recursos, pelo respeito e proteção do meio ambiente, ante o esbanjamento e expoliação das multinacionais. É esta a sexta prioridade.
Por que temos que aceitar, se um governo progressista chega ao governo, uma privatização fraudulenta que foi feita com anterioridade? Por que não se podem resgatar as riquezas do povo? A Revolução Bolivariana aumentou os impostos às companhias, estabeleceu o controle do Estado sobre a utilização dos recursos que são patrimônio dos povos (Aplausos).
Ameaçam de castigarem aqueles que tentarem rever algo do pactuado anteriormente, embora afetasse os interesses do país. Sob esse critério nós teríamos que aceitar a base naval norte-americana em Guantánamo, porque um governo cubano, maniatado, sem vontade, aceitou assinar um papel com um governo dos Estados Unidos. Ainda o governo dos Estados Unidos envia o cheque de US$ 4 mil anuais com pagamento pelos 117 quilômetros quadrados. Logicamente nós não aceitamos, guardamos o cheque numa caixa até o dia que recuperarmos nosso território e erguemos ali nossa bandeira (Aplausos e exclamações).
Lutar contra o imperialismo na América Latina é assinalar com clareza a responsabilidade dos Estados Unidos, que consome a quarta parte do combustível empregado no mundo. Em cada quatro barris consumidos diariamente um deles é consumido nos Estados Unidos, devemos dizer claramente que eles e o Norte esbanjador tem a responsabilidade da alta dos preços do petróleo.
Temos que salientar a verdade que não devemos aceitar seu discurso demagógico e por outro lado, trabalhar para construir alternativas de fornecimento energético aos nossos países que façam sustentável a atual situação, por isso apoiar Petroamérica, Petroandina, Petrocaribe, iniciativa generosa, sem paralelo na história do mundo, é enfrentar-se, no terreno das idéias e da luta política contra o imperialismo.
Devemos opor-nos à aplicação dos programas do Fundo Monetário Internacional (Aplausos). Os povos têm direito a revoltar-se contra os programas que tentem levar mais miséria, mais exclusão, mais fome, mais desemprego. A mobilização popular e a luta contra os programas de ajuste do Fundo é legal.
Sexta idéia, temos que lutar para difundir nossa verdade e este é um tema chave.
Há vários dias, Fidel dedicou uma parte importante de seu encontro com os jovens cubanos que participariam do Festival a discutir este tema, dizia-lhes que tinha que procurar constantemente a verdade e divulgá-la, porque o inimigo tem tergiversado a verdade, tem apresentado os fatos a sua vontade. Temos que ajudar os povos a encontrarem a verdade para libertar-se do domínio. Temos que travar e ganhar – dizia Fidel – a batalha em prol da verdade. Temos que lutar contra o poder midiático do imperialismo, temos que fazê-lo com criatividade e paixão, convencidos de que temos a razão, e è fundamental neste sentido o nascimento da Telesur, o surgimento se sítios alternativos como Rebelión e outros (Aplausos), que constituem novos espaços para a voz dos povos.
Sétima idéia, o que representa atualmente a luta antiimperialista na América Latina? A luta das forças progressistas e revolucionárias por atingir o poder. Temos que chegar ao poder, pois é precisamente a partir daí que se pode realmente lançar a obra de transformação posterior; não é chegar ao poder como fim, como uma meta, senão chegar ao poder para torná-lo instrumento de transformação revolucionária, instrumento para provocar mudanças profundas que as sociedades latino-americanas precisarem.; e a luta antiimperialista é também se não temos o poder , a luta e a mobilização popular contra as guerras, contra o neoliberalismo e contra a exploração.
O fato de fracassar na tentativa de chegar ao poder não significa renunciar à luta. É a mobilização constante, tirar novas forças, lições dos fracassos e começar novamente.
Mas, pode ficar claro desde o poder de onde o povo pode fazer o que agora está fazendo a Venezuela, o que se fez na Revolução Cubana. É o povo no poder que entrega a terra aos camponeses, que faz a reforma agrária, que ensina o analfabeto a ler, que proporciona a educação e o acesso à saúde, que protege e proclama os direitos da mulher e da infância.
É o povo no poder o objetivo, e não no poder como meta, com fim em se próprio, senão no poder para torná-lo instrumento de mudança e transformação, porque se manter-se no poder torna-se meta e não meio para desenvolver a luta a favor dos povos, então existe o perigo de pactuar com o império em troca de manter-se no poder, de ceder nos programas, nas metas, de renunciar às idéias que anteriormente defenderam em troca de manter-se no poder.
Temos que chegar ao poder e com o apoio do povo, começar a transformação que será enfrentada, inevitavelmente pelo império e seus aliados, mas isso exigirá maior apoio do povo.
É isto o que tem acontecido na Venezuela, verdadeiro processo de transformação popular, revolucionário e democrático; mas temos que saber que a execução desse programa a favor dos interesses nacionais levará, sem dúvidas, ao enfrentamento com a reação do império e seus aliados.
As vias para chegar ao poder: Poderão ser as eleições uma via? Com certeza, se as condições, como aconteceu na Venezuela, permitirem; o que não aceitamos è a idéia de que os povos só podem andar pelo caminho das eleições para chegar ao poder (Aplausos), e nesse sentido, a Revolução cubana reivindica o direito dos povos a todas as formas de luta revolucionária e à mobilização popular contra o neoliberalismo, contra a exploração e o subdesenvolvimento (Aplausos).
Dizemos isto com a autoridade de um povo que fez uma Revolução armada; um povo onde menos de 300 guerrilheiros derrubaram um exército de 10 mil homens numa ofensiva militar, apoiados e armados pelos Estados Unidos e no fim de uma guerra intensa, onde cada dia combateram 80 mil soldados de uma tirania apoiada pelos Estados Unidos que não puderam derrubar o Exército Rebelde, que eram menos de 5 mil combatentes com apoio popular.
Essa é nossa experiência, não a exportamos, nem apelamos a imitá-la, compreendemos as mudanças da situação mundial; mas reivindicamos o direito de cada povo a todas as formas de luta para chegar ao poder, como o inimigo utiliza todas as formas para derrubar os governos democráticos que não se subordinem a ele, para enfrentar a luta dos povos pela democracia e o desenvolvimento.
Portanto, a chegada do povo ao poder significa um desafio: há que eliminar o sistema hegemônico de dominação imperial ou terminamos pactuando com ele ou derrubados por ele. Não se pode fazer uma revolução sem afetar os interesses das estruturas oligárquicas nacionais, que são aliadas do imperialismo necessitam dele para garantir seus privilégios.
Um processo revolucionário antiimperialista defrontará inevitavelmente com o imperialismo, o imperialismo não entrega seu poder pacificamente; por isso lembro novamente o Che Guevara: não podemos conceder ao imperialismo nenhuma chance. É essa a lição.
Por isso a Revolução Bolivariana se faz mais legítima e verdadeira ante seu povo quanto mais se prepara para defender-se, gerando maior apoio e compromisso por parte do povo, que já desfruta o mel da vitória e o que significa governar de maneira independente os destinos de seu país.
Oitava idéia. A nível global acreditamos que é imprescindível defender o direito dos povos à paz, mas a uma paz digna e com justiça. A Revolução cubana não concebe uma paz que seja tirar aos povos seu direito de usar as armas para defender sua livre determinação ou defender-se da agressão (Aplausos), pois a nossa preparação para defendermos de uma agressão poderia ser chamada de terrorismo, mesmo como o uso do povo venezuelano das armas para defender sua pátria também poderia ser chamado de terrorismo.
Reivindicamos e apoiamos o direito a armar seu povo: um povo armado, unido e alerta jamais poderá ser derrubado (Aplausos e exclamações).
Finalmente, cabe perguntar: É uma quimera isto que apresentamos? São idéias de loucos que sonham sem compreenderem que a realidade é impossível de mudar? Acreditamos que não, e pensamos com a convicção de ter visto que sonhos que pareciam impossíveis fossem atingidos e ultrapassados.
Parecia impossível derrubar o poderoso exército espanhol na América Latina e os combatentes venezuelanos, comandados por Bolívar, os povos da nossa América fizeram-no.
Parecia impossível chegar no iate Granma, um pequeno iate de lazer para 17 passageiros, onde vieram 82 homens armados e chegaram.
Parecia impossível derrubar o exército armado pelos Estados Unidos em Cuba e foi derrubado.
Parecia impossível que a Revolução cubana se mantivesse depois do colapso da União Soviética, que nos tinha permitido protegermos do bloqueio, da agressão, e aqui estamos mais otimistas, mais firmes e fortes do que nunca (Aplausos).
Parecia impossível que aquele jovem ex-militar que tinha chefiado uma revolução de oficiais honestos e comprometidos com ele, em 4 de fevereiro aqui na Venezuela; quando depois de dois anos no cárcere chegasse a Cuba, parecia impossível que um dia fosse o líder de uma Revolução triunfante, o líder do processo de integração da América Latina e do Caribe, como é hoje Hugo Chávez (Aplausos).
Parecia impossível que se pudessem alfabetizar na Venezuela um milhão e meio de analfabetos que na atualidade sabem ler e escrever e muitos deles continuam seus cursos para terminar a sexta classe (Aplausos).
Parecia impossível que o apartheid pudesse ser derrubado, um exército poderoso, apoiado pelos Estados Unidos e pelas principais potências ocidentais e lá na nossa pátria, a 10 mil quilômetros, dezenas de milhares de combatentes cubanos, que somaram 55 mil, junto a soldados angolanos, guerrilheiros namibianos, fizeram possível a vitória de Cuito Cuanavale, o avanço pelo sudoeste de Angola e o regime do apartheid teve que negociar e pactuar a sua derrota, Angola preservou-se e a Namíbia foi livre e independente. Aqui devem estar presentes delegados namibianos que sabem que o sangue dos nossos combatentes derramado não foi sangue derramado em vão (Aplausos), e viram um dia içada a sua bandeira.
E Mandela foi livre quando parecia que ia morrer na prisão.
E parecia impossível que o menino Elián González retornasse a Cuba e voltou; e parecia impossível que os nossos Cinco jovens heróis voltaram a nossa pátria e pensamos que um dia voltarão para participarem dum Festival Mundial da Juventude, convidado por vocês (Aplausos e exclamações).
Portanto, não acreditarmos que sejam quimeras inatingíveis, sonhos impossíveis.
Nossos sonhos de hoje serão as realidades de amanhã, se lutamos por eles, se tivermos o ânimo, a convicção, a entrega, o compromisso, se reconhecemos que esta é a altura de lutar, de marcharmos unidos como a prata nas raízes dos Andes, como dizia José Martí. Se o fizermos, atingiremos a vitória, construiremos na América Latina e no Caribe uma confederação de povos livres e unidos que desempenharão um papel na construção dum mundo melhor.
Hoje, a Revolução Bolivariana ilumina esse caminho, a Revolução cubana continua sendo estandarte de resistência e dignidade.
Posso reafirmar aqui, em nome do nosso povo que lá na nossa pequena ilha, o povo sonha, luta e trabalha cada dia, que nossa resistência não vai ser derrubada. Que a Revolução cubana não poderá ser derrubada (Aplausos).
O imperialismo aposta sua vitória à idéia de que quando a geração que fez a Revolução, chefiada por Fidel não esteja, que quando não esteja Fidel nem Raul, o segundo chefe da nossa Revolução (Aplausos); quando não estejam os homens e mulheres que fizeram possível o que parecia um milagre, as novas gerações não terão o ânimo, a convicção e a paixão de seus pais para defender à Revolução. Mas a presença na Venezuela de milhares dos nossos jovens que nasceram quando a Revolução estava feita e tinha sido protegida de seus primeiros ataques, hoje encontram-se aqui como médicos internacionalistas, treinadores esportivos, professores, como exemplo dos valores que a Revolução tem semeado em nosso povo (Aplausos).
Quando vemos os jovens venezuelanos nas ruas, solidários, recebendo o melhor da juventude progressista mundial, aumentamos nossa convicção e fazemos mais forte nossa esperança de que nós temos a razão, de que vamos construir um mundo melhor, e que este mundo melhor é possível.
Até a vitória sempre!
Venceremos!
(Ovação)